SECRECY - ENTREVISTA
Nascidos das cinzas dos Ignoto Deo e My Fallen Angel, os Secrecy são uma das grandes sensações do metal gótico português. O tão esperado disco de estreia, ‘Beneath the Lies’, foi recentemente editado pela Ethereal Sound Works e dá a conhecer uns portuenses não só cheios de estilo mas aptos para adentrar no mercado internacional e reforçar a qualidade do nosso panorama musical.
Após um bom historial de espectáculos ao vivo, porquê só agora o álbum? Que importância tiveram esses concertos para o amadurecimento dos Secrecy?Os Secrecy começaram a compor os seus temas em inícios de 2002, altura em que te traçaram alguns objectivos. A banda pretendeu consolidar o seu projecto ao vivo como primeiro objectivo, tendo sido totalmente atingido com bastantes actuações um pouco por todo o país. A meio desse percurso surgiu-nos a oportunidade de assinar um contrato com a Ethereal Sound Works. Esse contrato possibilitou-nos a gravação de «Beneath the Lies». O álbum sai agora em inícios de 2005 que julgamos ser o timing perfeito para o seu lançamento, bem como também para a nossa editora.
Nota-se alguma preocupação vossa e da editora na apresentação gráfica do trabalho, disponibilizando no cd algum conteúdo multimédia. Consideram esses extras uma mais valia para uma banda, em que sentido?Sim, é sempre uma mais valia quando no interior do nosso CD podemos mostrar um pouco mais de nós, da nossa história, de como apareceu a banda e das gravações do álbum. Um conceito interessante a ser explorado em próximos trabalhos da banda.
Expliquem-me melhor o conceito da capa:inicialmente temos uma personagem do sexo feminino aparentemente nostálgica, sentada numa cadeira; na contracapa permanece apenas a cadeira, lembrando algo soturno, melancólico.O conceito que se encontra subjacente à capa, contra-capa e inlay foi baseado no título do álbum Beneath the Lies». A foto da capa, integra uma personagem feminina que olha para algo distante e demonstra uma total alienação perante a personagem masculina que a toca. Esta, representa uma relação, que não é mais que uma falsa realidade, uma mentira. Na sequência - contra-capa - as personagens desapareceram ficando apenas a cadeira, que simboliza o falso mundo de mentiras no qual se suportava a relação das personagens. A relação não existe mais, nada pode existir se suportado por mentiras a não ser as próprias mentiras. Mas estas também desaparecem e com o tempo apenas fica o mundo real. Mundo esse que é quase vazio, apenas preenchido por memórias da felicidade muitas vezes irreais e que há muito desapareceram. É essa a ideia que nos é transmitida pelo cenário da antiga fábrica de seca do bacalhau, onde os pilares, que outrora serviram para suportar a estrutura onde o peixe era salgado e secado, fazem agora lembrar cruzes de um velho cemitério - memórias que foram enterradas. Este é o conceito que serve de base, no entanto outros enquadramentos serão possíveis de efectuar com base nos quatro elementos compostos - A mulher, o Homem, A Cadeira e o Vazio - assim como na sequência subtractiva constituida pela capa, contra capa e inlay. De notar ainda a particularidade que existe quando se retira o CD, representando a cadeira - o suporte, as mentiras - e que é em si também a musica. Sem o CD fica apenas o vazio, e por analogia o silêncio.
Ao vivo, vocês apresentam uma imagem pouco formal, tocando o guitarrista com um chapéu de cowboy. Nunca vos aconteceu serem mais ou menos creditados por essa mesma imagem?Bem, isso sempre aconteceu dessa forma porque a banda sempre teve como lema a liberdade visual, principalmente nos primeiros anos de vida. Neste momento as coisas são um pouco diferentes e nos concertos de apresentação do álbum já se notam as diferenças em relação à primeira fase da banda. Achamos sim que o visual da banda é quase tão importante quanto a música, por isso estamos a cuidar desse pormenor com cada vez maior afinco.
Ou seja, nunca puseram em causa o vosso valor como músicos, por tal "aparência" em palco?Isso cremos que não, até porque temos tido ao longo dos tempos críticas bem positivas aos nossos temas por pessoas que nem têm necessariamente a ver com o universo gótico.
Ao longo das faixas fica-se com a sensação de que o vocalista quase nunca muda de timbre vocal, chega mesmo a lembrar, constantemente, o grupo Sisters of Mercy («Temple of Love»). O público, ao ouvir uma faixa vossa na rádio, não conhecendo os Secrecy, poderia associá-la a eles, não receiam isso?É interessante essa questão, já que, por exemplo, uma das entrevistas que nos fizeram apontaram que, dentro do darkwave rock nos afastamos definitivamente dos clássicos como os Sisters. É evidente que a voz do Miguel tem as suas semelhanças, mas não cremos que seja assim tão 'colado' ao Andrew Eldrich, e cremos mesmo que o instrumental solidifica essa diferença.
Qual é o significado do primeiro single «Perfect Isolation»?«Perfect Isolation» fala-nos de uma visão introspectiva acerca de um mundo construído por uma pessoa que vive à parte de tudo, e apesar de estar rodeado pela vida e pela sociedade isola-se no seu mundo. Tem a ver um pouco com a cultura do anonimato nas grandes cidades em que milhões de pessoas partilham o mesmo espaço físico mas são anónimas umas em relação às outras.
Não se consideram um pouco contraditórios? Afinal o isolamento perfeito é associado a uma utopia: se ficassem 'perfeitamente isolados' como poderiam mostrar o vosso trabalho ao grande público?Isso é verdade, afinal de contas um dos nossos objectivos é o de chegar ao maior número possível de pessoas. Para tal, o perfeito isolamento não é uma das nossas estratégias, mas o «Perfect Isolation» pode contribuir para uma maior visibilidade da banda, já que acreditamos que é um tema forte e com uma mensagem interessante, acerca do dia a dia isolacionista de muitas pessoas. Além do mais, «Perfect Isolation» é apenas um personagem inventado para contar uma história com música...
Consideram haver um circuito não só de fãs mas também de bares, lojas, etc, gótico em Portugal?Bem, em relação a há uns tempos atrás, em que o gótico quase desapareceu de cena, pensamos que vão havendo mais oportunidades dentro desse universo. Há muitas pessoas que são fãs desse movimento. Apesar de tudo pensamos que se trata de revivalismo, e que poderá ter os seus dias contados. O que é facto é que nós fazemos música não só para as pessoas enquadradas nesse universo como também tentamos chegar junto do público em geral, porque achamos que o nosso trabalho ultrapassa as fronteiras do gótico.
Em 2003 actuaram com uma banda conhecida um pouco por todo o mundo, embora apenas no meio gótico: os Inkubus Sukkubus. Isso contribui para que os Secrecy conseguissem abrir algumas 'portas' até então fechadas?Sim, é sempre um momento importante na vida de uma banda aparecer num concerto de músicos consagrados como os Inkubus Sukkubus. Para além de grandes músicos são uma referência no que diz respeito ao movimento pagão. Foi uma excelente noite e o vídeo amador que possuímos desse concerto faz-nos ter a certeza que estivemos à altura dos Inkubus.
Numa entrevista afirmaram desgostar de um estilo musical "dito mais extremo", porque o consideravam atingir apenas minorias. Assim, porque decidiram enveredar pelo estilo gótico se este, pelo menos em Portugal, parece ser um pouco marginalizado e abranger apenas minorias?Apesar de tudo, o 'gótico' que praticamos funde-se muito com um vulgar e mainstream rock, conforme se pode ouvir em «Beneath The Lies». O caminho é continuar a cruzar estes dois mundos e chegar ao maior número possível de pessoas, porque temos a certeza que seremos apreciados por mais pessoas se tivermos a oportunidade de nos mostrarmos a elas.
Normalmente, a nossa sociedade associa baixo preço a má qualidade. Não querendo referir nomes, «Beneath the Lies» está a um preço um pouco abaixo da média em comparação com outros artistas. Poderá ser interpretado, tal facto, como uma estratégia de marketing vossa e da editora, para assim poder chegar a um maior número de público?É objectivo da nossa editora divulgar a música que se faz principalmente em Portugal e fazê-la chegar ao maior número de público possível. Daí que o preço por eles recomendado seja um preço abaixo ao praticado no mercado pois são da opinião de que o preço actualmente praticado é excessivo e por vezes factor impeditivo da aquisição por diversos potenciais compradores. É opinião da nossa editora que a qualidade e o preço não se encontram relacionados e que é possível disponibilizar bons produtos de excelente qualidade a preços justos e acessíveis.
Entrevista por Tiago Oliveira